Foi na escola onde Maria Eduarda Silva, de 16 anos, sentiu a carga do preconceito pela primeira vez. "Negrinha", "macaca" e "baleia" foram alguns dos termos que ela começou a ouvir quando nem tinha 5 anos. O bullying fazia parte da rotina e a adolescente conta que passou a se sentir uma pessoa horrível, sem autoestima e sem futuro. A ideia de pôr um fim àquele sofrimento e abandonar a escola passou várias vezes pela cabeça de Eduarda. Mas persistir e resistir eram uma marca dessa pernambucana, nascida no município de Bonito.  

Ela encontrou apoio em sua família, mãe, pai e um irmão mais velho, que a encorajaram e deram forças para se aceitar e continuar na escola com a esperança de que as coisas iam mudar. "Já para me fortalecer em relação ao preconceito, eles sempre me falavam que minha pele e meu cabelo eram lindos, que eu não devia me abalar. Mas o convívio na escola era difícil", conta. A adolescente reforça que compartilhar o que vivenciou com os pais foi essencial, pois eles foram até a escola e conversaram com os professores, que conseguiram reduzir "um pouco" o clima ofensivo.

Ainda buscando se encaixar, Eduarda passou a alisar o cabelo. Até que um dia se olhou no espelho, não se reconheceu e a transformação veio dela mesma. "Percebi que a sociedade não podia querer mudar quem eu sou para me tornar igual a eles. E comecei o processo de transição capilar. Foi um processo muito difícil, é até hoje. Mas foi quando entrei no NUCA e me senti aceita, isso me impulsionou cada vez mais. Toda vez que eu pensava em ter uma recaída, tinha uma palestra que me ajuda", destaca.

A sensação de acolhimento e de ter um espaço para falar sobre tudo o que vivenciou foi uma forma de cura e Eduarda passou a militar pelo enfrentamento ao racismo e combate ao bullying de todas as formas. A adolescente foi convidada para integrar o núcleo de cidadania de adolescentes (NUCA) de Bonito pela Secretaria Municipal de Educação, participou de duas palestras como introdução e ressalta que se apaixonou pela proposta. “No NUCA, eu pude ter vez e voz. Pude falar o que eu sentia em relação ao próprio racismo que tinha sofrido. Pude me sentir aceita do jeito que sou, mostrar as minhas qualidades e passar meus conhecimentos. Também posso aprender, com os outros jovens, coisas que eu não sabia”, relata, cheia de orgulho e brilho no olho. 

“Hoje, eu sou uma pessoa totalmente diferente do que eu era antes. Sou uma pessoa mais livre. Posso dizer que sou Eduarda e tenho o mundo em minhas mãos e ninguém tem autoridade para dizer quem eu sou, além de mim.”

Reencontro com a escola

Eduarda e integrantes do NUCA discutem inclusão escolar em oficina de vídeo
Eduarda e integrantes do NUCA discutem inclusão escolar em oficina de vídeo

Como integrante do NUCA, a adolescente diz que uma das atividades que mais gosta é aproveitar as oportunidades de conversar com outros adolescentes, tanto na escola como nos encontros do NUCA. “Na cidade, contribuí muito e passei a ver jovens com pensamentos diferentes, com uma mente mais aberta depois das palestras e conversas”, destaca. Eduarda mudou e, contagiando outras meninas e meninos, mudou o ambiente na escola. Atualmente no 1º ano do ensino médio, frequentar a escola passou a ser leve e prazeroso.  

Com um interesse pessoal por cinema e teatro, a adolescente participa de um grupo no NUCA que produziu um vídeo sobre os efeitos do racismo e do bullying na escola e um segundo vídeo sobre os benefícios do próprio NUCA (confira aqui). “Penso que podemos aumentar ainda mais a quantidade de jovens sensibilizados e, por isso, pensei no teatro para apresentar em praça pública e atrair jovens com algo que eles gostem de ver”, comenta, em relação a uma das possibilidades que vai discutir com o grupo para cumprir o Desafio 8 – Promover Práticas de Enfrentamento ao Racismo. 

Encontrar outros adolescentes, encontrar-se e ampliar as vozes transformou a vida de Eduarda. “Hoje, eu sou uma pessoa totalmente diferente do que eu era antes. Sou uma pessoa mais livre. Posso dizer que sou Eduarda e tenho o mundo em minhas mãos e ninguém tem autoridade para dizer quem eu sou, além de mim”, diz, lembrando que a resistência é uma realidade desde os tempos de colonização. “A luta de índios e negros contra o racismo vem desde a colonização. Então, a gente tem que lutar cada vez mais. E no NUCA encontrei um caminho para isso”, destaca. 

Enfrentamento ao racismo e outros desafios

Eduarda participa em campanhas de inclusão escolar
Eduarda discute temas como direito ao voto, inclusão escolar e combate ao bullying no NUCA

Pela metodologia do Selo UNICEF, os NUCAS de cada município devem cumprir oito desafios temáticos como uma forma de garantir o envolvimento e a participação das meninas e meninos em políticas públicas relevantes para os adolescentes, a exemplo de esporte seguro e inclusivo, internet segura e inclusão escolar. Essas discussões norteiam as atividades realizadas pelos adolescentes, que são apoiados por uma mobilizadora de adolescentes. 

A implementação de NUCAs como espaços de troca e discussão de adolescentes é uma atividade obrigatória para os municípios participantes no Selo UNICEF. A proposta é reunir pelo menos oito meninos e oito meninas de cada município, mas a maior parte chega a ter muito mais pelos benefícios observados entre os envolvidos. 

O Selo UNICEF
A Edição 2017-2020 do Selo UNICEF conta com a participação de 1.924 municípios de 18 estados brasileiros, que assumiram junto ao UNICEF o compromisso de implementar políticas públicas para redução das desigualdades e garantir os direitos das crianças e dos adolescentes previstos na Convenção sobre os Direitos da Criança e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
 
A experiência com as edições anteriores comprova que os municípios certificados com o Selo UNICEF avançam mais na melhoria dos indicadores sociais do que outros municípios de características socioeconômicas e demográficas semelhantes que não foram certificados ou participaram da iniciativa.
 
Sobre o UNICEF
– O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) promove os direitos e o bem-estar de cada criança em tudo o que faz. Com seus parceiros, trabalha em 190 países e territórios para transformar esse compromisso em ações concretas que beneficiem todas as crianças, em qualquer parte do mundo, concentrando especialmente seus esforços para chegar às crianças mais vulneráveis e excluídas. Visite www.unicef.org.br.